AdF.25
Força de tradução
Atos de Fala em sua atual edição se volta à força de tradução na tentativa de se aprofundar na proposta de Bispo. O quilombola tradutor de mundos nos deixou há cerca de dois anos, e destrinchar suas palavras é a forma que temos de reverenciar, referenciar, e traduzir a força de performance deste que sabia muito bem fazer coisas com palavras.
Antônio Bispo dos Santos costumava dizer que não era um pensador, mas um tradutor. Essa percepção deriva da história de vida de quem se letrou como um serviço ao seu povo do quilombo que, acostumado à ética da palavra oral, se viu às voltas com contratos por escrito, e títulos de propriedade.
Atos de Fala em sua atual edição se volta à força de tradução na tentativa de se aprofundar na proposta de Bispo. O quilombola tradutor de mundos nos deixou há cerca de dois anos, e destrinchar suas palavras é a forma que temos de reverenciar, referenciar, e traduzir a força de performance deste que sabia muito bem fazer coisas com palavras.
Tomar o pensamento como ato de tradução convida-nos a algumas especulações. Por ser um termo tão vinculado ao uso da língua, uma primeira relação se faz pelo esforço de comunicação e sua inerente produção de ruídos. No entanto, algumas teorias linguísticas já dariam conta disso, e percebemos que a singularidade da fala de Bispo nos convoca a um passo adiante. Afinal, o seu pensamento prioritariamente incorporado e situado chama a atenção para algo mais profundo que o conhecido paradoxo da proximidade de culturas que, quanto mais se efetiva, mais evidencia distâncias. É que o lastro radical de Bispo na experiência, introduz a intimidade como um regulador de partilhas e revelador de limites. Ambivalência já presente na dupla forma como se fez conhecido, respondendo tanto como Nêgo Bispo quanto como Antônio Bispo dos Santos e muitas vezes se apresentando como ambos, só para evidenciar os limites da formalidade, esse teatro de protocolos que em nome da produção de conhecimento se torna também o seu impeditivo.
É sob esse ímpeto de tradução que oscila entre comunicação e ruído, entre resistência decolonial e repulsa contracolonial, tanto quanto entre intimidade e abismo, transparência e opacidade, fluxos orgânicos e cortes sintéticos, linearidade desenvolvimentista e envolvimentos circulares, que propomos uma curadoria atenta a experimentos calcados no encontro das diferenças por seu viés desestabilizante, na revisão das certezas, na confusão de sentidos, e nos movimentos deslizantes entre mundos coexistentes e por isso mesmo incompossíveis.
É aí também que a experiência de quilombo nos atravessa. Visto que naquele lugar se desenvolvem tecnologias tradutivas de relação e comunicação interespécies, aprendendo-se a prever a chuva ao se ouvir os pássaros, e aguçando-se a capacidade interpretativa dos comportamentos da mata, dos ventos e das águas. A aposta na simbiose e nas trocas, bem sintetizada no dito "A terra dá, a terra quer", afirma relações com o entorno a despeito da lógica de propriedade. Elabora-se assim uma noção de convivência, de co-constituição entre viventes que, pouco romantizada, e cheia de desafios e dificuldades, ainda assim, explicita o quanto nós, sociedade civil, urbana, avançamos rumo ao atraso neste quesito. Como restabelecer a convivência, essa ampla negociação entre entidades vivas de diferentes reinos, numa sociedade fortemente balizada pela lógica da propriedade e do sujeito individual? Como a arte de performance e suas ações de fala podem promover experimentações e problematizações que nos ajudem a traduzir a ecologia quilombola ao contexto em que nos encontramos?
Essas perguntas energizam a atual edição de Atos de Fala com uma programação que, entre a fúria do mercúrio, a linguagem dos pássaros, o emaranhado da convivência, o movimento pela perspectiva do mundo das plantas, a instituição convocada à dimensão afetiva e a imaginação política fomentada pelos animais, tenta fazer jus ao espírito afiadamente irônico e criticamente bem-humorado de Antônio Bispo dos Santos, o Nêgo Bispo.

Bem-vindes!
Felipe Ribeiro e Cristina Becker