ESCAPAR DO CAPATAZ

Táticas de Persistência

Programação

Atos de Fala chega à sua quinta edição sob a cruel percepção de que a livre flutuação de capital vem, mais uma vez, às custas da repressão e do cerceamento das populações historicamente vulneráveis e desassistidas. A noção de liberdade é uma disputa e, sob essa lógica, parece migrar drasticamente do corpo para a corporação. A política tomada com uma relação fundamental do povo na polis é substituída pelo marketing, o modo de discurso empresarial.

Sob a lógica do marketing, todo fato se torna uma questão de perspectiva. É assim que nossas formas de resistência são reapropriadas em discursos escusos que invertem o sentido e ao invés de combater o opressor, perpetuam-no. Replicações robóticas de fake news assombram o imaginário popular e as formas conhecidas de luta encontram rapidamente seus limites nesta batalha em que mentira se torna pós-verdade! O discurso passa a importar menos pelo que quer dizer e primordialmente por sua capacidade de convencimento e ação. Em meio a essa luta desleal pelo poder, precisamos tramar outras formas de persistir. Os estudos de negritude e fugitividade nos chegam como um estímulo e um aprendizado. Em situações de impasse, onde não há saída possível, é imperativo forjar o escape. Escapar desorienta quem nos persegue, e se abre como uma contra-ameaça, afinal quem escapou pode sempre retornar e de onde menos se espera!

Se os quilombos foram a geografia do escape no Brasil feudal, as demandas atuais nos lembram que os territórios são também sensoriais e simbólicos. Assim, escapar das garras do opressor é também não ser capturado por sua lógica, nem permitir que ele nos roube os estímulos de vida obrigando-nos constantemente à responder a suas demandas. Escapar, neste sentido, se torna abster-se da resposta direta, em busca de dar dois passos à frente e voltar à colocar perguntas contundentes. Só assim reformulamos a agenda social e abalamos as forças que insistem em aparelhar as estruturas.

O conjunto de artistas que formam AdF.19 – Escapar do Capataz, diagramam suas fugas e fazem o poder tremer. Ao longo dos dias, nos reunimos em torno de uma programação que questiona o intuito desenvolvimentista do país, que afirma a potência libidinosa feminina e queer, que questiona o desgoverno como estratégia de manutenção do poder, que afirma a nudez como experiência pública, que experimenta desmoronamentos, que apresenta a potência de vida apesar da vulnerabilidade do corpo preto-urbano-favelado, que disputa a futuridade pelo imaginário afro, que experimenta a boca como centro de instintos, que se apoia no nomadismo como modo de construção de afeto, e que imbui-nos da pergunta que não dá descanso ao capataz: “Quem mandou matar Marielle?”

Seguimos juntos!
Felipe Ribeiro e Cristina Becker

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