Surfando no Impasse

É difícil qualificar o que ainda está em curso. No entanto, no que diz respeito a macropolítica nacional, 2017 é substancialmente um ano de perda de direitos e desqualificação de noções básicas de cidadania. Se concordamos com Lazzarato e Alliez de que uma guerra se faz com as ferramentas disponíveis, podemos dizer que ao invés de entrarmos em luta armada, é a guerra cultural – e global – que serve agora de munição para as medidas neoliberais advocadas por empresários e implementadas pelos governos.

A desinformação torna-se uma tática de guerra. No Brasil, a grande imprensa desvia-se de seu papel informativo e reflexivo, abstendo-se de disseminar e discutir projetos de interesse nacional. Por outro lado, a rede, tecnologia elogiada por sua capacidade plural de comunicação e pensamento, é utilizada com aquela mesma estratégia de terceirização que a reforma trabalhista defende: táticas ciborgues de fazendas de likes parodiam apelos populares a medidas impopulares. No âmbito legislativo, a despeito de todos os escândalos de corrupção, a governabilidade é garantida através da regulamentação de exceções válidas somente para colarinhos brancos.  E podemos afirmar que até o voto, instrumento democrático e fundacional do congresso é capturado ao atrelar o resultado das plenárias à liberação de emendas parlamentares. O contexto portanto é o de execução de ritos constitucionais, mas que retirados de seu propósito de Bem-estar social e em prol do comum, performam uma democracia demofóbica.

A arte, em seu papel de formação, reflexão e experimento no campo social, tem também seu exercício comprometido. Novamente, os instrumentos de censura se atualizam, e ao invés da proibição direta do estado, o exercício artístico é marcado por ataques difamatórios, pela judicialização de seus intuitos, e pela supressão de verbas e programas de fomento. O Rio de Janeiro chega ao cúmulo de viver um calote dado pela prefeitura aos artistas!

Ainda assim, arriscamos dizer que essas medidas repercutem um imaginário naïve, aquele que acredita que a arte é um sistema que se basta na representação, e que como tal seria um acessório social supérfluo. Acreditamos, do contrário, que a arte é um sistema performativo diretamente imbuído na construção do mundo, com uma potência que certamente ultrapassa as eleições de 2018!

Como um contra-efeito dessa supressão de apoio governamental às artes, os artistas estão livres de qualquer prestação de contas, e apostamos que é nessa brecha que algo novo há de surgir!

Ao mesmo tempo refletindo o contexto e moldando-o, Atos de Fala acontece nesse ano numa versão AdF.crise convidando os artistas, sua equipe e seu público a reconhecer a urgência do momento sem nem por isso sucumbir a sua histeria; a estar atento a produção de regimes de exceção justamente para produzir os seus escapes.

Esta edição AdF.crise propõe um encontro alongado, utilizando-se do formato de aulas como produção criativa. Durante três dias, artistas, e teóricos se encontram no auditório do Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica para levar a cabo o ciclo de palestras-intervenções intitulado A Besta e o Soberano. Além desse ciclo, a cada dia contamos com uma nova performance: Elilson ativa Ré Pública; o coletivo Bonobando e Simon Will apresentam Monumoments – resultado de sua residência artística e Flávia Naves propõe O Capital é Capilar. Contamos ainda com a mostra GatoNet de vídeos apresentados sob regime de copyleft.

O momento pede respostas vigorosas, e sua força será reverberada quanto mais elas ultrapassem esse momento!

Bons encontros e ótimos diálogos,

Felipe Ribeiro e Cristina Becker.

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