Como um festival que investiga a relação entre corpo e palavra, Atos de Fala procura performances que em seu processo experimental assimilem e reverberem o contexto em que se inserem.


AdF.16 dobra e desdobra a “Volta à Futuridade.”

Pensamos em futuridade e seguimos José Muñoz quando coloca que é necessário inventar outras formas de Futuro que não estejam tão ligadas a economia da reprodução. Para isso Muñoz leva a cabo o projeto de Ernst Bloch, o de “viver o Futuro no Presente”, e portanto dissociando a utopia de uma base fantasiosa e meramente otimista. A utopia impacta porque ela está presente na concretude de como cada luta se relaciona com tantas outras na história. Assim ela surge como um horizonte, espacialmente distante mas presente no tempo.

Poder vislumbrar horizontes, tem sido uma forma de energização fundamental nestes últimos três anos, no Brasil. A vida política do país pressiona e se impressiona com os encontros e ocupações populares dos mais diversos estratos e que ora magnetizam relações distópicas, ora revertem o que parecia sem saída, de volta em força utópica. Mas chegamos num ponto em que estas duas forças estão tão amalgamadas que demandas populares inclusivas e amplas na formulação se confundem com estratégias parcas de esvaziamento de sentidos das palavras. As distinções entre fato e boato estão borradas, e assistimos de forma recorrente aos instrumentos e procedimentos democráticos sofrerem inversões de seus propósitos e serem portanto capturados no intuito de manutenção de poder. Dos estúdios e gráficas de jornais, aos compartilhamentos das redes sociais, das ruas dos centros financeiros e das periferias da cidade, às casas do legislativo, do executivo e do judiciário a disputa constante se faz entre a liberdade do discurso e o discurso de liberdade.

Não há como Atos de Fala não participar deste contexto de impasse. Por isso apostamos na Volta à Futuridade como uma forma de tentar conjuntamente estabelecer um plano de experimentação entre público, artistas, seus gestos e obras. Um plano que se crie por conexões e não por aprisionamentos, que suscite cada vez mais invenções e que repulse os disfarces, que produza estratégias duracionais de um coletivo sempre aqui e a vir, sempre a se formar pelo que escapa, coletivos que exerçam a liberdade da exceção.

Da invenção de gêneros, à diaspora de sua identidade, da problematização do efeitos do humano diante da escala do mundo, à convivência da imagem do outro estampada no próprio corpo, do cansaço como dispositivo fundamental de habitar o contemporâneo, à persistência do livro como tecnologia, do pós-pornô como um modo de vida, à dublagem do outro como forma autêntica de construção de comunidade, e à repetição da voz alheia como transe materialista, AdF.16, propõe uma programação como um breve diagrama de conexões potenciais que abram algumas possibilidades de estarmos juntos na diferença. Desdobrando-as por aqui e já não mais aqui, estaremos emanando futuridade.

Atos de Fala – Sobre o Festival

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